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Zen E a Arte Da Manutenção De Motocicletas

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Comecei a ler este livro anos atrás, mas acabei não terminando, e retomei ele após ler o recém-comentado Os Vagabundos Iluminados, já que ambos são histórias semi-autobiográficas nas quais o zen-budismo exerce influência num contexto urbano ocidental (especificamente, nos EUA).

Mas a semelhança termina aí. O livro do Kerouac é um desfile de personagens, que não pretende ensinar muito (até porque é questionável se os protagonistas realmente tinham muito o que ensinar). Já o Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas é mais profundo: seu objetivo é analisar diversos temas filosóficos (tais como teoria do conhecimento, ética e filosofia da ciência) usando como pano de fundo a viagem de moto que o autor faz com seu filho Chris e com um casal de amigos.

A narração da viagem é intercalada com considerações sobre os temas expostos – uma das primeiras é a comparação entre a visão “romântica” do conhecimento (que estaria interessada na forma superficial e nas relações entre as coisas) e a “clássica” (mais centrada na composição e no funcionamento subjacente). É fácil enxergar aí o conflito entre humanas e exatas, entre gente que tem pavor da tecnologia (personificada no livro pela mecânica de motocicletas) e os geeks que conseguem encontrar a beleza nisso – não é à toa que faz parte da lista de livros recomendados por Joel Spolsky para programadores que levam o ofício a sério.

O autor alega que esta distinção não é tão natural quanto parece, e retrocede aos gregos para demonstrar este argumento. Segundo ele, é necessário reconciliar estas visões para sustentar, entre outras coisas, a universalidade e confiabilidade do conhecimento científico, e para tanto ele propõe o uso do conceito de “Qualidade” – algo que que todos nós conhecemos mas quase ninguém é capaz de definir com clareza (de fato, uma das proposições centrais é que o conceito não é passível de definição).

Nesta busca, o leitor vai descobrindo que o autor é assombrado por Fedro, um “fantasma” do passado, cuja natureza vai se revelando, e que enriquece os dois lados da história – os discursos filosóficos ganham um contraponto, permitindo diálogos no estilo Sócrates/Platão; e a história da viagem se revela como a busca pela reconciliação do autor com seu passado (Fedro) e futuro (Chris).

Um ponto digno de nota é como ele expõe de maneira extremamente acessível a não-iniciados questões espinhosas, tais como a da origem sensorial do conhecimento – contrapondo o empirismo em Hume (para quem, grosso modo, o conhecimento é produto direto da experiência) e a visão mais equilibrada de Kant (que resgata o conceito de conhecimento a priori, pondo-o à luz do mundo sensorial). Outro tema no qual verifica-se a qualidade da sua oratória é quando ele explica a ameaça que a descoberta de geometrias não-Euclidianas representou para a estrutura do conhecimento vigente até então.

Ao final, o leitor pode ou não concordar com a tese do autor. Mas seguramente sairá da leitura com uma noção menos nublada e preconceituosa das diferentes maneiras de enxergar o conhecimento humano. E como brinde vem um enredo bem bacana, que ajuda na digestão do grande volume de informações.

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