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Twitter E a Frivolidade

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Ao se falar em comunicação, é lugar-comum afirmar que uma mídia é caracterizada não apenas por suas capacidades, mas também por suas limitações. Ainda assim vale a pena resgatar a idéia, pois ela ajuda a entender alguns aspectos desse brinquedo novo chamado Twitter.

O rádio é o exemplo clássico desse raciocínio: tecnicamente falando, a TV deveria tê-lo substituído por completo – afinal, toda TV tem um rádio built-in (basta ignorar a imagem). Na prática, essa limitação (ausência de imagem) é justamente o que torna a paixão do Freddie Mercury uma opção mais viável no carro, na academia ou no trabalho.

O mesmo fenômeno se observa no Twitter: a obrigação de escrever em até 140 caracteres (em conjunto com a sumária punição através do unfollow em massa para aqueles que “roubam” usando múltiplas mensagens) funciona como atrativo para a geração pós-MTV, que não pode (ou não quer) manter o foco em qualquer assunto por mais do que alguns segundos. E também disciplina prolixos compulsivos (como eu), obrigando-os a ir direto ao ponto.

Outra consequência de aspecto duvidoso dessa limitação é o quanto ela torna a escrita mais informal (leia-se: miguxês, tiopês e toda a espécie de sodomização do idioma correndo solta) e pessoal (haja visto que a facilidade de se dirgir publicamente a @pessoas dilui a fronteira entre o discurso e a conversa particular).

É possivel tirar algo intelectualmente positivo deste fato? Sim, mas é preciso olhar para outra plataforma: os blogs.

Não há uma definição muito certa sobre como um blog deve funcionar ou o que deve abordar (e é justamente essa flexibilidade que define o meio). Entretanto, muitos blogs com forte potencial de informação e entretenimento acabam cedendo a uma temática excessivamente informal e pessoal (podcasts, então, são o terreno fértil da egotrip, mas isso eu deixo pra outro dia).

Isso me chamou a atenção porque mesmo o meu blog – que raramente aborda assuntos pessoais, só o fazendo quando eu julgo interessantes para o público ou para fundamentar algum argumento – foi afetado pelo Twitter. Me dei conta disso ao comparar a viagem que fiz para a África do Sul em 2007 com a que estou fazendo agora.

A anterior durou apenas duas semanas, passadas em hotel e trabalhando bastante – e ainda assim foi detalhadamente blogada em 11 posts. Já na atual eu estou literalmente morando num apartamento, durante um mês inteiro, com mais tempo em mãos – e ainda assim sequer foi mencionada.

O motivo? Simples: quem quer acompanhar a viagem pode fazê-lo de forma muito mais ágil e interativa através do meu Twitter, no set do Flickr e até mesmo no Orkut velho de guerra (outro site que “roubou” toneladas de frivolidade anteriormente destinada a blogs e páginas pessoais). Ou seja: até o momento em que a viagem deu vazão a algo mais interessante do que a minha vidinha emo-nerd, eu nem mencionei ela aqui – não porque não pudesse, mas porque não precisei.

E não é difícil encontrar essa inversão em outros blogs – fica para o leitor a demonstração(*): visite alguns dos blogs que você conhece há anos, e verifique que os blogueiros que aderiram ao Twitter invariavelmente publicam com menos frequência e mais qualidade – ou, ao menos, com menor frivolidade. Pelo mesmo caminho é possível afirmar que a explosão dos blogs no início da década tirou muito do aspecto pessoal de sites de notícias, portais e assemelhados – os redatores destas instituições passaram a usar seus blogs (oficiais ou não) – como escape para a informalidade e o contato direto, da mesma maneira que os blogueiros usam o Twitter hoje.

Também é possível mapear esta “válvula de frivolidade” na dobradinha rádio/TV, só que de outra forma: neste caso, a mídia com maior capacidade (TV) é que levou embora o conteúdo da mídia limitada (rádio). Mas o resultado foi o mesmo: a TV permitiu às estações de rádio focar em assuntos que casam melhor com elas, como música e notícias (e pregação religiosa, mas esse também é assunto para outro momento), e ainda viabilizou a vazão de conteúdo “menos nobre” sob formas que os radialistas sequer poderiam sonhar (Big Brother funcionaria no rádio? Duvido.)

Enfim, torcer o nariz para o Twitter (como muita gente vem fazendo) porque ele não tem utilidade prática, ou por conta da falta de caráter literário/informativo/educacional é bobagem – a frivolidade já existe na rede, o passarinho só concentra e organiza. Tuiteiros e não-tuiteiros, todo mundo ganha.

Longa vida às mídias frívolas!

(*) esta frase é um recurso muito usado por matemáticos preguiçosos – eu mal me formei e lanço mão dela semanalmente.

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