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Os Movimentos E a USP

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O episódio recente envolvendo o confronto entre policiais e estudantes/professores/funcionários da USP trouxe a público uma questão que se arrasta há anos dentro dos muros da Cidade Universitária: o movimento sindical pelos direitos dos funcionários e sua relação conturbada com o movimento estudantil e discente contra o sucateamento do ensino público.

O Prof. Túlio Vianna observa com a sensatez que lhe é tradicional o quão infeliz é a idéia de mandar a tropa de choque para dentro da universidade. O confronto era inevitável – eu diria que quase desejável, do ponto de vista da reitoria (isso, claro, se o feitiço não virar contra o feiticeiro). O Serra sai ganhando em qualquer caso, pois angaria simpatia com a direita conservadora sem perder nenhum voto que já não fosse dele mesmo.

O episódio violento e o dividendo eleitoral são razões mais do que suficientes para me deixar desapontado com os rumos que a situação tomou. Mas não são as únicas coisas que me desagradam nessa história toda. O assunto tem sido debatido em listas de discussão, redes sociais e outros lugares que nem sempre eram o foro mais apropriado, o que me levou a comentar sobre alguns destes pontos polêmicos:

Institucionalização da greve

Qualquer aluno ou professor pode confirmar que as greves são cíclicas. Elas têm a época pra iniciar, são interrompidas durante as férias e só a duração é que varia (de acordo com a repercussão). O resultado é que os alunos se veem privados de serviços fundamentais (como o refeitório e o ônibus circular), sem enxergar qualquer contrapartida (o que lhes seria compreensível para um evento esporádico, mas não em algo que acontece todos os anos.)

Isso tem vários efeitos negativos: os alunos que conseguem levar a atividade acadêmica sem depender destes serviços simplesmente ignoram as manifestações. Os restantes sofrem (e se tornam mais simpáticos a posições reacionárias). E quem poderia resolver as questões, isto é, a reitoria, mal toma conhecimento – até que a coisa sai de proporções, como no momento em que foi feito piquete impedindo a entrada na cidade universitária, e aí acontece o que aconteceu (insisto que a reitoria jamais deveria ter feito o que fez – mas o piquete deu a eles a desculpa furada de que precisavam.)

Relação entre movimento estudantil e sindical

Uma das coisas que mais me incomoda é justamente essa “frente única”. É verdade que salários e condições de trabalho justas para funcionários e professores são um elemento importante para a manutenção da qualidade de ensino. E também é razoável que os usuários do serviço manifestem um certo grau de simpatia em relação aos prestadores.

Mas nada disso convence que as greves periódicas – e a participação de grupos de alunos nelas – sejam benéficas no longo prazo para ambas as partes (em particular para os alunos). Além de misturar pautas que têm pouca relação umas com as outras (e muitas vezes méritos bem distintos), quase sempre os maiores prejudicados pelas atividades conjuntas são os alunos – e o resultado é claramente ilustrado pelos exemplos abaixo.

A “maioria” que apóia a greve

A participação em greves é decidida em assembléias, nas quais não há um quórum mínimo determinado (ou, quando há, sequer é de maioria). Nem sempre é viável para todos os alunos participar das mesmas – o que gera um mecanismo perverso: os alunos mais envolvidos com a atividade acadêmica (que são os mais propensos a se opor a estes movimentos) respondem pela maior parte da ausência e, por conta disso, as posições de uma minoria são “acatadas pela maioria” e colocadas em prática.

Todo mundo tem culpa nisso: desde a organização das assembléias (que não estipula quórum mínimo ou considera mecanismos alternativos – salvo eventuais assembléias feitas em faculdades, a assembléia geral é o instrumento comum) até os alunos que não participam. O resultado é que, embora não tenhamos um dado concreto sobre opiniões dos alunos (uma pesquisa de opinião isenta faria bem), fica a forte impressão de que a maioria esmagadora do corpo discente é contra as atividades, mas acaba sujeita a elas.

Estereótipos e bullying

É natural que num instituto de humanidades as pessoas se envolvam em maior número e expressividade do que, digamos, em um instituto de exatas, e é quase certo que alinhamentos políticos se correlacionem com a área de estudo em maior ou menor grau. Isso não se sobrepõe ao princípio acadêmico fundamental que é a liberdade de expressão, mas, infelizmente, a realidade que os alunos da USP vivem é que é muito difícil escapar aos estereótipos institucionais. Quem nunca ouviu piadas sobre a existência da matéria “Greve e Manifestação I” na FFLCH, ou que aluno da Poli só fica sabendo da greve quando a Veja chega na porta do apartamento na praia que atire a primeira pedra.

Tem vezes em que o cenário é até mais complicado. Na época da invasão/ocupação da reitoria presenciei uma situação peculiar: assembléias foram convocadas sucessivamente no Instituto de Matemática (IME) para definir a posição dos alunos. Tratava-se de uma manobra evidente por parte dos pró-invasão, já que a primeira assembléia foi massivamente contra a presença dos alunos no prédio, e, acima de tudo, contra a interrupção da atividade acadêmica que se sucedeu.

Até aí tudo bem – é um pouco tacanho querer vencer pelo cansaço, mas até um certo ponto faz parte do jogo. O que realmente me desapontou foi o jeito com que os estudantes mais tímidos eram tratados com desdém quando se manifestavam contra o assunto (comigo ninguém arriscava: eu lido com pseudo-dialética trotskista desde a época em que essa galera só gritava mesmo com o Bowser quando perdia uma vida.)

Não estou defendendo um estado de cortesia hipócrita como o que se vê muitas vezes no ambiente corporativo – o debate e o confronto de idéias é da natureza do meio acadêmico. Entretanto, este confronto deve ficar restrito ao terreno das idéias, o que nem sempre acontece nestas assembléias e plenárias. Essa atitude só coloca lenha na fogueira dos reacionários, que regojizam com tragédias como a do útlimo dia 9.

Confrontos internos

É ledo engano achar que a presença da PM é o único causador da violência relacionada ao movimento sindical na universidade. Não é preciso acreditar na minha palavra: esse tipo de confronto físico já foi registrado em vídeo pelo menos duas vezes. A primeira foi o Sintusp Wars, no qual alunos da Escola Politécnica debocham dos manifestantes (generalizando-os como “alunos da FFLCH”) e registram agressão de alunos da faculdade por integrantes do SINTUSP que estariam protestando no estacionamento da Poli (e que teriam alegado agressão anterior por parte de professor).

Deixando de lado o humor e a “reportagem” de qualidade e gosto questionáveis, há um registro inqeuívoco do confronto a partir do sétimo minuto. É importante observar que o protesto afetava apenas alunos e professores – que, até onde sei, pouco apitam sobre as questões trabalhistas da universidade. Além disso, posso estar enganado, mas o funcionário em questão parece ser exatamente Claudionor Brandão, líder sindicalista detido no confronto com a PM e ex-funcionário, cuja demissão (possivelmente política) por justa causa é assunto de reviravoltas jurídicas e segue em aberto, sendo um dos grandes pontos de conflito entre reitoria e manifestantes.

Se o confronto entre estudantes e sindicalistas já demonstra uma relação menos simbiótica do que parecer, é mais impressionante ainda (apesar da falta de som) a Cadeirada na Física, ocasião em que o Instituto de Física entrou em greve após assembléia bastante dividida. Os alunos empilharam carteiras em barricada, mas um professor insistia em dar sua aula, e começou a desempilhar as carteiras ao mesmo tempo em que alunos as recolocavam na pilha.

O professor, vendo que não teria sucesso, arremessa uma cadeira e sai, sendo que a reação dos alunos sugere fortemente a possibilidade de agressão ao professor – e eu nem sei por onde começar a comentar o quanto essa idéia vai contra tudo o que se acredita e se respeita no ambiente acadêmico.

Conclusão

O assunto é bastante complexo para ser resolvido com opiniões minimalistas do tipo “desce a porrada nos vagabundos” ou “abaixo a reitora subserviente aos interesses capitalistas”. Longe de defender o niilismo ou a alienação, convido à análise e à reflexão – lembrando que em todo conflito com algum histórico é fácil escolher um ponto no tempo e justificar todo o resto como reação justa àquela arbitrariedade. Israelenses e Palestinos fazem isso o tempo todo, e isso não ajuda a chegar num consenso. Não caia nesta armadilha. Pense.

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