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Chester Na África (IX)

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08/10 (Segunda) – Fatos da África do Sul: Idioma, Racismo e Apartheid

Esse dia foi puro trabalho, então aproveito para falar de dois assuntos muito requisitados no meu e-mail desde que esta série começou:

Idioma:

bandeira_africa_do_sul.jpgA África do Sul tem 11 idiomas oficiais. Não vou entrar em detalhes (tem informação abundante na Internet), mas a boa notícia para os viajantes é que em cidades grandes como Cape Town praticamente todo mundo fala inglês. Isso eu comprovei na prática: é quase impossível encontrar placas, outdoors ou cartazes em outros idiomas, e qualquer um na rua que você aborda arranha um básico pelo menos.

Claro que a situação muda um pouco longe dos centros urbanos, por questões culturais. Por exemplo, em cidades como a já mencionada Stellenbosch você encontra mais cartazes em afrikaans (ou africânder, a língua dos colonizadores europeus), assim como o Zulu, Xhosa e outros idiomas nativos ficam mais proeminentes em outras regiões (segundo depoimentos, não pude conferir pessoalmente). Mas suas chances com o inglês são boas em qualquer lugar.

Racismo e Apartheid:

Novamente, há bastante coisa sobre o apartheid e sobre a influência do racismo na história da África do Sul na rede, mas aqui uma impressão pessoal e atualizada é de grande valia, então vou me estender um pouco no assunto:

Resumão da história oficial: até o início dos anos 90, o país vivia sob um regime que, sob o pretexto de proteger a minoria branca, efetivamente estabelecia sua supremacia, privando a população negra dos direitos mais fundamentais. Em 1990 o regime foi abolido em caráter administrativo, e em 1994 promulgou-se a constituição atual, tida como uma das mais liberais da atualidade em termos de liberdade de expressão e de garantia dos direitos do cidadão, independente de sua etnia.

Quando criei coragem para abordar este tema com os sul-africanos, minha primeira surpresa foi perceber que ele não é exatamente um tabu. As pessoas falam do assunto com espantosa naturalidade – talvez pelo fato de praticamente todo estrangeiro perguntar, cedo ou tarde. Não há qualquer embaraço em discutir etnias – só é bom lembrar que, assim como nos EUA (e ao contrário daqui), o termo nigger (negro) tem um caráter um pouco pejorativo, sendo black a expressão politcamente correta.

O discurso é relativamente uniforme: o pessoal entre os 20 e 40 (i.e., os que eram jovens quando a mudança ocorreu, em muitos casos ajudando no processo) têm plena convicção de que o apartheid é coisa do passado, e de que o racismo é um sentimento detestável. Não conversei com gente mais jovem, mas a observação e os depoimentos da geração X me levam a crer que para os adolescentes (de qualquer etnia) o apartheid faz tanto sentido quanto o telefone de disco ou o Menudo.

Um fato curioso é que desde os anos 80 os sul-africanos de classe média/alta (particularmente os afrikaans) costumam passar um tempo no Reino Unido (creio que têm uma facilidade diplomática para isso). Uma boa parte dos meus colegas de trabalho fez isso, e é razoável crer que este costume ajudou a juventude branca (muito mais propensa a ter dinheiro para tanto) a se dar conta a realidade nefasta do regime.

Dizem que é possível encontrar “nacionalistas” (eufemismo para racistas) entre os afrikaans mais das antigas, mas a influência atual deles sobre o estado das coisas é mínima. O mesmo vale para os representantes da comuniade negra que temem que o esquecimento da história leve à sua proverbial repetição. Mas o primeiro grupo é extremamente velado (eu só soube de ouvir falar) e o segundo também tem alcance limitado, já que os sul-africanos no geral querem mais é virar logo de uma vez essa página vergonhosa da sua história.

A empresa onde trabalho (para fins de exemplo, afinal, passei bastante tempo da viagem lá) pertence a um grupo (NASPERS) que foi fundado por imigrantes europeus – e até há quem a acuse de se omitir durante o regime (embora ela jamais tenha se pronunciado de forma favorável). O que eu vi: ali trabalham brancos, negros, “coloridos” (que é como eles chamam os mestiços), indianos, enfim, gente de todas as etnias.

As disposições governamentais sobre igualdade de direitos são afixadas em vários lugares, e o inglês reina supremo (compreensivelmente incorporando termos dos outros idiomas aqui e ali), facilitando a comunicação. Ou seja, você vê que a diversidade é abraçada, e a coisa não parece ser forçada, ou para inglês ver.

A figura de Nelson Mandela é de fato tão representativa deste processo de mudança para os sul-africanos quanto para nós (talvez até mais). A visita a Robben Island, onde Mandela passou boa parte dos 28 anos em que esteve preso, é bastante popular entre os turistas. Num menor grau, Desmond Tutu (clérgico que lutou contra o regime e popularizou o termo “Rainbow Nation” para designar o país) e, com um pouco mais de controvérsia, De Klerk (presidente branco que levou a cabo o desmantelamento do apartheid) também são lembrados quando o assunto surge.

Isso não quer dizer que a vida para os negros africanos seja um mar de rosas. As restrições de caráter econômico (que os impediam de atuar como empresários, ou nos ramos mais lucrativos da economia, ou nas terras mais férteis) deixaram uma herança de desigualdade socioeconômica, cujos reflexos são idênticos aos encontrados no Brasil: quanto mais economicamente privilegiado é o ambiente em que você se encontra, menor é a presença de negros.

Um ponto muito positivo (na minha visão) é que as ações sociais e governamentais pendem mais para o investimento no desenvolvimento socioeconômico das comunidades (e da nação como um todo) e para a educação do que para a polêmica ação afirmativa – não que esta não exista, mas não é vendida como a principal ferramenta de inclusão (como ocorreu nos EUA e agora no Brasil).

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