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Little Brother / Free Culture

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Estou devendo comentários sobre inúmeros livros que andei lendo, e começo a pagar esta dívida resenhando dois no mesmo post:

Little Brother é uma excelente obra de ficção de Cory Doctorow (um dos co-editores do popular Boing Boing), na qual um ataque terrorista em solo americano faz com que a população de uma cidade americana tenha suas liberdades civis ainda mais tolhidas do que já acontece hoje (por conta da suposta “guerra ao terror”).

Aos cidadãos só resta o uso da tecnologia para proteger sua privacidade e oferecer resistência ao estado orwelliano (evidente referência no título), e os jovens, que melhor a conhecem, lideram a reação.

A narrativa é boa, mas o mérito mesmo é pelo retrato de dois universos: o dos jovens que cresceram já integrados à “vida digital”; e o do crescente estado de sítio que os republicanos insistem em impor aos EUA (e, por influência, ao resto do mundo).

Ambos têm o seu grau de licença artística e uma pitada de exagero (de otimismo no primeiro caso, e de pessimismo no segundo), mas convencem: você começa o livro querendo jogar Harajuku Fun Madness, mas termina pesquisando maneiras de criptografar seu disco rígido.

Free Culture, por sua vez, é não-ficção. O autor, Lawrence Lessig, é um professor de Direito de Stanford conhecido, entre outras coisas, por sua luta contra os abusos cometidos pelo establishment americano com base em leis carentes de atualização, tais como as de direitos autorais / copyright e as de telecomunicações.

O livro aborda as delicadas relações comerciais e legais entre os produtores e os consumidores de cultura – sem deixar de fora os inúmeros intermediários, desnudando sua relevância ao longo da história,, mostrando (como diz o subtítulo, em tradução livre) “como a grande mídia usa a tecnologia e a lei para trancafiar a cultura e controlar a criatividade”. A atualidade e universalidade do tema é atestada pela constante discussão em torno do mesmo.

A abordagem não é exatamente linear – num momento o livro traça um panorama histórico da variação das leis de propriedade, buscando uma definição mais apurada para termos como “pirataria” e “propriedade intelectual”; mas rapidamente passa para pormenores de jurisprudência americana envolvendo a indústria fonográfica ou mesmo para projeções de modelos de negócio para artistas – tudo com o objetivo de desbravar o mosaico que se tornou o assunto.

A imparcialidade (que o tratamento acadêmico exige) equilibra bem o ativismo (em prol dos direitos do cidadão comum que corporações de mídia procuram minar), conseguindo um resultado bastante didático sem, no geral, se tornar enfadonho (e a não-linearidade permite que leitores interessados em pontos específicos cheguem diretamente a eles).

Optei por falar dos dois de uma vez só não apenas por tratarem de temas correlatos (direitos e liberdades civis em uma sociedade que justapõe oligopólios e comunidades criativas), mas também porque ambos foram publicados sob licenças Creative Commons – que permitem não apenas a criação de trabalhos derivativos, como também a livre reprodução em diferentes mídias (facultando ao leitor a compra do livro de papel, ou, no caso do Little Brother, a opção de recompensar o autor de outra forma). Eu, por exemplo, pude ler no iPhone (via Books.app), e há versões em áudio, traduções coletivas, etc., tudo através de desenvolvimento comunitário – o que, por si só, já demonstra a relevância do assunto.

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