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Some of My Best Friends Are White

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Quando viajei pela primeira vez para a África do Sul (em 2007) fiz algumas considerações sobre a convivência entre os diversos grupos étnicos no pós-apartheid. A idéia de “rainbow nation” descrita ali é válida, mas numa nova (e mais longa) viagem notei que, num nível mais pessoal, ainda persistem diferenças nas pequenas coisas do dia-a-dia – diferenças cuja mecânica ou justificativa eu não conseguia decifrar.

E foi justamente um livro de humor, o Some Of My Best Friends Are White (o link dá uma palhinha, via Google), que jogou uma luz nisso. O título e a ilustração da capa já mostram a que veio Ndumiso Ngcobo, o autor zulu que cresceu numa vizinhança humilde sob orientação católica, mudando-se para os subúrbios depois de adulto. Isso lhe deu experiência com as mais diversas etnias – e nenhuma escapa do alcance de sua lingua ácida.

A princípio, ele é destinado para o público que já está imerso nos estranhamentos entre etnias – mas um leitor de fora como eu entende e se diverte com quase todas as piadas (o capítulo sobre “taxi commuting”, uma forma comum de transporte público lá, daria um ato de stand-up comedy impagável) e ainda ganha com o aprendizado de assuntos sobre os quais as pessoas de lá muitas vezes não falam – talvez por ser lugar-comum demais, talvez por destoar do discurso de superação da discriminação.

Um exemplo desse tipo de assunto é a dificuldade que os zulus têm em aceitar a propseridade dos indianos (sim, eles são um grupo étnico lá): à semelhança do que acontece com os judeus por aqui, nem sempre os conterrâneos enxergam o empreendedorismo e o trabalho duro por trás do sucesso financeiro – os indianos, em contrapartida, cometem os pecadilhos de novos-ricos que alimentam as já ferinas más línguas. E o autor se esbalda na confusão resultante.

Outro lance que ele desnuda é a contraposição do jeito europeu de ser dos brancos com o ubuntu (sim, eles usam essa palavra no dia-a-dia para algo que não tem a ver com computadores) que guia o dia-a-dia de muitas comunidades nativas. Esse “viver coletivo” bate de frente com o estilo “certinho” – novamente, não nas coisas grandes, mas nos pequenos detalhes do dia-a-dia.

Esse tipo de coisa não há democracia que resolva: trata-se de diferenças culturais. O autor coloca as cartas na mesa, e em meio à piada expõe suas opiniões – em geral posições contrárias ao lugar-comum politicamente correto (por exemplo: ele defende que o jeito objetivo dos brancos para questões financeiras é superior ao “jeitinho” que o povo dele aplica a essas coisas, por uma questão de justiça). Às vezes (particularmente nos dois últimos capítulos) ele chuta um pouco o balde, quase beirando o fascismo – mas eu prefiro acreditar que se trata do exagero característico da comédia.

De qualquer forma, é uma leitura recomendada, tanto para quem pretende visitar a África do Sul, quanto para quem quer entender um pouco melhor o ser humano – e, em qualquer caso, permite rir um pouco no processo.

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