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Revolution in the Valley: The Insanely Great Story of How the Mac Was Made

18 Jan 2011 | Comments

Antes de se tornar objeto da admiração de uns e desinteresse/suspeita de outros, a Apple passou por três fases bem definidas: a “era de ouro” em que o Apple II e o Macintosh original foram criados; a queda em parafuso rumo à irrelevância; e a volta por cima. O papel evidente de Steve Jobs nas fases virtuosas alavanca o culto em torno de sua pessoa  a um ponto que fica difícil separar a verdade do mito, valorizando qualquer testemunho de quem esteve mais próximo.

Revolution in the Valley: The Insanely Great Story of How the Mac Was Made é um livro que reúne dúzias de histórias sobre o fim da primeira fase, isto é, sobre a criação do Macintosh. Boa parte delas veio do site Folklore.org: Macintosh Stories, organizado pelo autor – ninguém menos que Andy Hertzfeld, que escreveu boa parte do sistema operacional original do Mac.

Mesmo para quem (como eu) já tinha lido o site de alto a baixo, é bacana acompanhar as histórias revisadas, ampliadas e em ordem cronológica. As ilustrações também são um show à parte – só lamento que a coleção de polaroids mostrando a evolução da interface gráfica tenha sido publicada num tamanho tão minúsculo. Eu teria sacrificado algumas histórias ou aumentado o número de páginas, só para dar um pouco mais de zoom ali.

Ao contrário de revelações bombásticas, o livro corrobora muitos dos estereótipos ligados a diversas personalidades citadas – em particular ao próprio Steve Jobs, cujo perfeccionismo muitas vezes torna a convivência difícil, mas ao qual o autor atribui a direta responsabilidade por introduzir o computador que efetivamente deu início à era da informática para leigos.

Também é interessante observar os papéis significativos que “notórios desconhecidos” como Bill Atinkson (programador que criou, entre outras coisas, o QuickDraw, MacPaint e o HyperCard), Burrell Smith (projetista de hardware com a difícil missão de suceder o Woz) e Susan Kare (ilustradora cujo trabalho é admiravelmente abrangente) desempenharam neste processo. Quem gosta de micros antigos vai curtir muito esse livro.

OFF-TOPIC: Por falar em Woz, ele vai estar na Campus Party 2011 no sábado. E por falar nesta,** eu vou dar uma palestra** ao lado do Marcelo Castelo na manhã desta sexta-feira (21/Jan, às 11h), na área de Desenvolvimento (setor azul, lááá no canto). O tema é “Empreendedorismo em Aplicativos Mobile”, e eu pretendo trabalhar um pouco o lado do desenvolvedor nessa história toda. Vamos lá?

Sony Ericsson Xperia X10 Mini Pro – Avaliação

16 Jan 2011 | Comments

Estou vendendo meu X10 Mini Pro (com o update 2.3 instalado)
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Passei dois anos com um iPhone, e uma das coisas que me incomodava era digitar nele. Fato: o melhor teclado virtual do universo é pior que o teclado físico mais vagabundo. Eu escrevo muito (basta me seguir no Twitter para conferir) e quem produz conteúdo “na estrada” precisa de teclas de verdade. É o motivo pelo qual eu não trocaria meu netbook por um tablet – e que me fez desencanar de um iPhone 4 quando o 2G se foi.

Juntando a isso o fato de já estar de olho no Android há pelo menos três anos, comecei a procurar aparelhos com este sistema cujo preço não superasse os três dígitos. Também era importante contornar outras limitações do iPhone: a falta do flash na câmera e o formato/tamanho. A busca terminou no Sony Ericsson Xperia X10 Mini Pro.

Desmontando o nome gigante: Xperia é a linha de smartphones high-end da Sony Ericsson, X10 foi o primeiro baseado em Android, Mini é a versão reduzida (com algumas características diferentes) e o Pro o Mini que ganhou o teclado retrátil.

O tão desejado teclado físico não decepciona: a Sony abriu mão das teclas numéricas superiores (que só fazem falta em ocasiões raras) em favor de um tamanho viável para digitar com os polegares – o resultado é bom se você tiver as duas mãos disponíveis e dedos não muito grandes. Também conta a favor o flash, aliado à câmera de 5 megapixel – um pouco sensível demais à vibração, mas no geral boa.

A autonomia da bateria depende do uso. O meu caso é bem intensivo: vou para o trabalho ouvindo podcasts, assistindo seriados (dica: converta os arquivos usando o HandBrake com o preset “iPod” – a resolução QVGA é a mesma, e o formato resultante é suportado nativamente), uso o Twitter (geralmente com o Seesmic e agora experimentando o twicca – a app oficial não me caiu bem), faço checkins e reviews no Apontador Local e jogo bastante. No geral, uma carga por dia é suficiente para tudo isso, mas eventualmente alguma app menos comportada fica em background detonando a bateria. Entra em cena o Advanced Task Killer, que com um toque mata o que quer que esteja rodando em segundo plano.

Jogos, aliás, são o aspecto em que o iOS ainda dá mesa, mas os mais populares (ex.: Angry Birds) começam a surgir no Android. Os puzzles são numerosos (atualmente me divirto com o Andoku e o Bubble Blast) e uma área de destaque são os emuladores, praticamente impossíveis no iOS devido às políticas draconianas. Me divirto com jogos de Atari no Ataroid, de Spectrum no Marvin e ZX81 no Zed Ex – este último do brasileiro Claudio Matsuoka. E muito em breve vai ter miniTruco pra ele também!*

Um dos pontos negativos são as customizações desnecessárias no Android e as demos de software não-removíveis. As primeiras a gente troca (por exemplo, troquei o lançador de apps pelo HelixLauncher), e com o resto o jeito é conviver. Mas o ponto que realmente complica é a política da Sony Ericsson com updates: eles demoraram uma vida para disponibilizar o Android 2.1 (só pintou no final do ano passado), e anunciaram de forma deselegante (e mal-justificada) que não vão mais fazer updates nos Xperia.

Com essa atitude eles deixam na mão quem acreditou neles, coincidentemente no exato momento em que estão lançando uma nova linha de smartphones Android. Não fosse isso, eu recomendaria a compra sem reservas – é um ótimo aparelho – mas enquanto não rolar um firmware alternativo, eu volto ao boicote anti-Sony iniciado por conta dos rootkits e formatos incompatíveis.

  • (ok, já tem uma versão beta, mas ainda está um pouco instável – quando estiver apresentável, faço um post só sobre ela)

UPDATE: Saiu um firmware alternativo baseado no Android 2.2 (Froyo), e ele realmente dá vida nova ao celular (e mostra como o software da Sony Ericsson é horrível). Escrevi as minhas impressões sobre ele.

Racing the Beam: Um raio-x do Atari 2600

04 Jan 2011 | Comments

Racing The BeamUm aviso: não tenho como ser muito imparcial com este livro. Pra começo de conversa, jogos como Enduro, Pitfall, Adventure e Raiders of The Lost Ark são parte integrante das minhas memórias de infância. Eu associo o nome Atari ao universo dos videogames tanto quanto gerações mais recentes o fazem com Nintendo, Sega ou Sony. E um dos grandes “to-do”s da minha vida é concluir o desenvolvimento de algum jogo para essa plataforma. Já flertei com esta proeza no passado, o que resultou em uma pequena animação interativa (perdida no tempo) e em um artigo publicado há quase DEZ anos atrás no site Fliperama – cortesia do Internet Archive Wayback Machine.

Tudo isso torna natural que eu me divirta muito com Racing The Beam. Os autores (Montfort, Bogost) visualizam ele como um exemplo de formato para “estudos de novas mídias”, no qual as características da plataforma (arquitetura de hardware + ambiente social) são analisadas lado a lado com as expressões artísticas (jogos) produzidas sobre ela.

A abordagem é pertinente: as limitações e peculiaridades da arquitetura do videogame (sobre as quais o artigo mencionado acima dá uma noção bem superficial) definem a maneira com que os programadores-artistas trabalhavam: cada programador criava sozinho um jogo inteiro, definindo suas características à medida em que conseguiam desenhá-las e implementá-las. Isso é bem diferente da dinâmica na qual um numeroso time de especialistas trabalha a partir de um design/roteiro, comum nos dias de hoje.

O ecossistema ao redor destes programadores também é levado em conta: muitos dos jogos da era áurea do Atari tinham como premissa a adaptação de versões de fliperama, que operavam em hardware muitas vezes mais poderoso (ex.: com mais CPU, RAM, suporte a framebuffer, tiles, múltiplos botões, etc.) ou mesmo muito diferente (como o display vetorial do Asteroids ou os terminais com teclado e saída de texto como no Colossal Cave Adventure). Isso fazia com que os planos originais sofressem sucessivas mutações, e o livro analisa em detalhes três jogos produzidos desta forma: Adventure, Pac-Man e Yars’ Revenge.

Outros dois títulos produzidos sem uma versão prévia específica (Combat e Pitfall!) também são esmiuçados, e um jogo baseado em filme de sucesso (Star Wars: The Empire Strikes Back) fecha o pacote. Este último ilustra a relevância dos licenciamentos sobre as últimas produções – um dado importante, considerando que a quebra do mercado de videogames que se seguiu foi caracterizada pelo foco nas franquias acima da qualidade da produção. O exemplo clássico é a ambiciosa produção de E.T.: The Extra-Terrestrial, cujo fracasso de vendas obrigou a Atari a destruir milhões de cartuchos não-vendidos e amargar o prejuízo.

A exposição de cada jogo é acompanhada por explicações detalhadas sobre o funcionamento da plataforma e por dados históricos sobre o ambiente em que os jogos eram produzidos e consumidos, para que o leitor possa compreender as forças que atuaram sobre cada detalhe técnico ou estético de um jogo. E a análise não se resume aos seis jogos mencionados: outros tantos são rememorados sempre que se mostram úteis para desenvolver um aspecto qualquer. Quem gosta de computadores e videogames antigos não tem como errar com este livro – que eu pretendo ler muitas outras vezes.

Dance Central (Kinect)

29 Dec 2010 | Comments

Quem me conhece sabe o quanto eu gosto de Dance Dance Revolution (DDR), o jogo de dança japonês disponível em fliperamas (embora os do Brasil geralmente tenham Pump It Up, o equivalente da coreana Andamiro) e também nos consoles através de “tapetes de dança”. Cheguei até a customizar um tapete e também a importar outro, mais profissional. Mas chegou um ponto em que a limitação do controle aos pés e a baixa viabilidade de jogar à noite em apartamento me fizeram desisitr de tê-lo em casa.

Quando soltaram o primeiro vídeo promocional do Kinect (então conhecido como Project Natal), a primeira coisa que eu pensei foi em como a Konami não perderia tempo em lançar algo parecido com o DDR para ele, mas a Harmonix saiu na frente com o Dance Central. O jogo se beneficia da experiência da empresa como desenvolvedora original do Guitar Hero e do Rock Band – que ajudou não apenas com a dinâmica do jogo, mas também com os contatos que levaram ao uso de músicas conhecidas em versão original (as poucas músicas que não são feitas pela própria Konami no DDR costumam ser remixes europeus de *covers *de qualidade questionável).

DDR à parte, o Dance Central é ótimo. O objetivo do jogo é simples: você dança em frente à câmera, reproduzindo os passos que compõem cada música, sendo que cada passo é representado por um símbolo e um nome mnemônico. Por exemplo: o Torch pede para erguer os braços como se estivesse carregando uma tocha; Burn a Ride é o gesto de pedir carona, Disco e Fever compõem uma dancinha básica estilo John Travolta, e por aí vai. Um passo executado corretamente rende um “nice” ou (se for muito bem feito) “flawless”, e no meio da música o momento freestyle deixa o jogador dançar à vontade (e filma para constrangê-lo logo em seguida).

Dance Central (Kinect)

Jogadores mais avançados (ou ousados) podem ignorar os símbolos e simplesmente imitar o dançarino na tela como se estivessem em frente a um espelho. Eu vou pelo caminho oposto: antes de jogar uma música, entro no modo Break it Down, que ensina a dançar cada um dos passos isoladamente. É possível até treinar em câmera lenta aqueles em que você estiver mais enroscado. Com isso não tem desculpa: qualquer um pode jogar, independente de sua relação prévia com a balada.

Mesmo passando a empolgação inicial, ainda estou me divertindo um bocado com o jogo (a ponto de ter mudado a posição de todos os móveis na minha sala para liberar o espaço que o Kinect pede – pelo menos 1,80m). O mesmo não pode ser dito do Kinect Adventures (que vem junto com o periférico) – ele lembra o Wii Sports no sentido de mostrar as capacidades do controle inovador, mas não tem o replay value deste.

Tenho também o Dance Masters – esse sim da Konami e planejado como sucessor do DDR – mas confesso que ainda nem abri a caixa. O Dance Central me ganhou fortemente. Fãs de jogos de dança têm nele uma justificativa mais do que suficiente para adquirir o Kinect, e mesmo quem não se empolgou com os tapetes pode vir a gostar desse jogo. É comprar e se jogar!

Chester na Disney

26 Dec 2010 | Comments

Chester na DisneyA viagem à Califórnia foi seguida por um passeio à Disney de Orlando – ou, oficialmente, ao Walt Disney World Resort. O meu maior interesse era conhecer os parques temáticos – e entender o fascínio que gente como Cory Doctorow tem pelo assunto (Down And Out in the Magic Kingdom e Makers são dois ótimos livros dele que flertam com o tema).

Visitar três parques (e um centro de compras com atrações próprias) é um programa para três ou quatro dias – mas eu só dispunha de dois. Felizmente a minha companheira de viagens era a Bani – uma verdadeira “rata de Disney” que conseguiu compactar a visita no tempo necessário. Muitas das dicas que compartilho nesse post vieram dela.

Uma dessas sacadas foi prestar atenção aos dias em que cada parque tem Extra Magic Hours, i.e., mantém as atrações abertas até mais tarde para quem se hospedar nos hotéis da Disney (como o Dolphin, onde ficamos). Isso nos permitiu visitar o Hollywood Studios e o Epcot no mesmo dia, deixando o outro para o Magic Kingdom e encaixando as comprinhas no Downtown Disney (por exemplo, o Lego a granel) no tempo livre. Tudo isso usando o transporte gratuito que, além de numerosas linhas de ônibus, inclui barcos que ligam alguns hotéis ao Epcot/Hollywood Studios e outros ao Magic Kingdom – e até um monotrilho.

Outro lance é ficar esperto com o FastPass . Não precisa radicalizar como eu e a Bani (lemos um livro no qual um dos assuntos é o fundamento estatístico dele), mas localize rapidamente as atrações indispensáveis que oferecem o FastPass, pegue o passe da que estiver mais cheia e vá para a fila de uma das outras, intercalando com atrações que tenham menos fila.

Reservar restaurantes também é uma excelente idéia (e você pode fazer isso online aqui no Brasil mesmo). As reservas nos garantiram uma ótima experiência no Wolfgang Puck e no Nine Dragons, mas tivemos que comer cedo e contar com a sorte para não pegar fila no Pecos Bill Tall Tale Inn, no Rainforest Café e no Sci-Fi Dine-In Theater – esse último reproduz a experiência do cinema drive-in passando versões curtas dos filmes e desenhos dessa época. Mas foram todos ótimos, sempre com opções vegetarianas de respeito – só comi o peixe no Wolfgang Puck porque parecia (e era) bom.

As fotos estão online, como de costume, e com isso só me resta falar dos rides. Alguns chamam eles de “brinquedos”, mas eu prefiro traduzir como “atrações” ou mesmo o literal “passeios” – já que alguns são mais interessantes pela ambientação do que por qualquer aspecto lúdico. Ao invés de falar de cada um deles, resolvi usar o método do Apontador e dar de 1 a 5 estrelas a cada um dos que eu fui:

Hollywood Studios

Rock’n'Roller Coaster Starring Aerosmith
★★★★★
The Twilight Zone Tower of Terror
★★★★★
Muppet★Vision 3D
★★★★★
The Great Movie Ride
★★★★☆
Studio Backlot Tour
★★☆☆☆

Epcot

Journey Into Imagination With Figment
★★★★☆
Captain EO
★★★☆☆
Living with the Land
★★★☆☆
Gran Fiesta Tour Starring The Three Caballeros
★★★☆☆
Maelstrom
★★☆☆☆
Mission: SPACE
★★★★☆
Test Track
★☆☆☆☆
Reflections of China
★★☆☆☆
REIMAGINED! Spaceship Earth
★★★★☆
O Canada!
★★☆☆☆
The Seas with Nemo & Friends
★☆☆☆☆
Soarin
★★★★★
IllumiNations: Reflections of Earth (fogos)
★★★☆☆

Magic Kingdom

Pirates of the Caribbean
★★★★☆
Big Thunder Mountain Railroad
★★★★★
Haunted Mansion
★★★★★
Space Mountain
★★★★★
Walt Disney’s Carousel of Progress
★★★☆☆
Buzz Lightyear’s Space Ranger Spin
★★★☆☆
“it’s a small world”
★★★★☆
Peter Pan’s Flight
★★★★☆
Mickey’s PhilharMagic
★★★☆☆
Wishes Nighttime Spectacular (fogos)
★★★★★

Justiça seja feita: o Soarin quase mereceu um 6 (eu fui duas vezes e iria mais), e o Test Track não merecia nem existir: muita fila para uma atração chata, sem propósito e des-educativa (passa a idéia de que tecnologia é a solução para evitar acidentes de automóvel). Os fogos no final do dia no Magic Kingdom são imperdíveis e resumem bem a experiência. Ah, e só pra constar: os boatos sobre a Sininho que desce “voando” do castelo ser interpretada por um homem são inconclusivos. :-P

Scroogenomics: A Economia dos Presentes

24 Dec 2010 | Comments

Um livro cujo título junta Economics (economia) e Scrooge (personagem avarento do conto de Dickens, que também foi homenageado por Carl Barks ao nomear o Tio PatinhasUncle Scrooge no original), pode parecer mal-intencionado. Mas não é: o objetivo de Scroogenomics é mostrar que a compra desenfreada de presentes no natal não é exatamente a oitava maravilha para a economia nacional ou global – ao contrário do que o senso comum (compras ⇒ aquecimento econômico) possa sugerir.

A idéia central é que quando eu pago, digamos, R$ 50 por uma mercadoria, é porque considero que aquilo vale (em termos de satisfação, utilidade ou qualquer critério de valor) pelo menos aqueles R$ 50. Se eu toparia pagar, digamos, R$ 70 por essa mercadoria (caso não a achasse por R$ 50), criou-se valor nesta compra. Em contrapartida: se você gastou R$ 50 para me dar um presente, mas é algo pelo que eu não pagaria mais de R$ 40, o seu ato de boa-vontade destruiu R$ 10 de riqueza dentro da nossa economia.

Parece bobeira, mas somando toda a perda de valor, o número ultrapassa os US$ 60 bilhões – só nos EUA! Com bom humor e sem exigir conhecimento de econometria ou outros assuntos técnicos, o autor mostra como quantificou e qualificou estes números, e pincela algumas soluções – sem querer fazer spoiler, ele pondera até as limitações de presentes em dinheiro (que seriam ideais em uma visão de economia na qual todos os agentes econômicos fossem racionais), defende os gift cards (conhecidos aqui como “vale-presente”) como um bom meio-termo, e apresenta razões suficientes para levar em conta as versões filantrópicas destes cartões, isto é, os que a pessoa usa não para reverter em compras para si, mas sim para “gastar” em caridade dentre uma gama de instituições e causas.

Um exemplo desse tipo de presente são os gift cards do Kiva. O Kiva é um site de microcrédito (que já mencionei antes), através do qual pessoas físicas podem fazer empréstimos de baixo valor – empréstimos estes que fomentam atividades econômicas em comunidades de baixa renda ao redor do globo. O gift card deles permite que você dê ao seu amigo ou familiar a oportunidade de, como diz o lema do site, mudar vidas. O livro mostra que esse tipo de presente não apenas destrói pouco ou nenhum valor entre quem dá e quem recebe, mas que, no somatório da economia, constrói valor como poucas outras coisas conseguiriam.

Mesmo que você não considere esse tipo de iniciativa, ainda é interessante aprender com este economista para onde vai o dinheiro (e, mais importante, o valor) toda vez que dá ou recebe um presente, e, no mínimo, conseguir mais satisfação do presenteado por real gasto.

(Interessado? Compre o meu na lojinha!)

Chester em San Francisco

20 Dec 2010 | Comments

Chester nos arredores da Golden GateNa minha cabeça, Califórnia é aquele lance descrito pelo Joel Spolsky: todo mundo plugado, surfe, e o verão do amor. A realidade, contudo, é outra: o WiFi nas ruas é escasso (e é difícil conseguir um chip pré-pago com dados), a chuva lembra a garoa paulistana, e me imaginar num calção de banho iniciava uma crise psicológica de hipotermia. Mas os amigos que nos acolheram tambem ofereceram Wi-Fi, dicas e companhia, viabilizando um passeio por San Francisco (e arredores) em apenas quatro dias – com direito a uma aula do Knuth em pessoa!

Numbers Rule Your World

29 Nov 2010 | Comments

Numbers Rule Your WorldSeria um exagero dizer que todo mundo curte um bom livro sobre matemática. Mas não dá para ignorar a popularidade dos que tentam jogar fora a interpretação natural dos números em favor de uma nova ordem que possa emergir do caos aparente. Exemplos incluem o Freakonomics, com a sua investigação baseada em números; o Outliers, que olha para as pessoas e coisas que se destacam; o Free; o The Long Tail e toda uma série de livros cujo tema é a “matemática fora da caixa”.

Numbers Rule Your World vai na contramão disso. Ele é sobre a matemática que funciona. Cada um dos seus cinco capítulos aborda um aspecto da estatística que funciona muito bem, obrigado. E cada um desses tópicos é introduzido por um par de aspectos da vida real, que mostram o mesmo fator trabalhando em direções opostas, às vezes com resultados diferentes também – mas isso quando o aspecto socio-psicológico entra em jogo, introduzindo o erro e a superstição.

Ao comparar o problema das filas da Disney com os congestionamentos em estradas de alta velocidade, por exemplo, ele observa o contraste entre a solução ótima (controlar a variância do público nas atrações/entradas) e a crença popular de que mais capacidade ou uma espera média menor reduziriam o problema. Ele aproveita para desmistificar o “homem médio” (um conceito surpreendentemente aceito, dado que não é tão antigo quanto parece) e também para mostrar que a consideração do fator humano é o que torna o trabalho dos engenheiros da Disney mais aceito que o dos seus colegas do departamento de trânsito.

Outro caso curioso é o das possibilidades remotas: morrer na queda de um avião é tão improvável quanto ganhar na loteria, mas as pessoas continuam evitando viajar de avião e compram bilhetes em vão. Mas há um fato estatístico mais interessante: a investigação de padrões improváveis permitiu mostrar que não há companhia mais (ou menos) segura que outra para voar, além de possibilitar a detecção de fraudes lotéricas em resultados aparentemente aleatórios.

A assimetria de recompensas e punições é outro tema onde o social conflita com o matemático. Isso é visto no capítulo que compara testes anti-dopping e polígrafos para uso policial/militar. Vale lembrar que o inventor de um dos testes que levaram ao polígrafo também é o criador da Mulher-Maravilha e seu Laço da Verdade.

Os exemplos se desdobram, e sob este aspecto, o livro é fantástico. O que me incomodou um pouco foi o tom professoral: não apenas ele repete e repete e repete os mesmos conceitos em diferentes formas, mas ainda faz um apanhado geral no final. E também abusa do recurso de te convencer de um ponto de vista controverso (ex.: que uma pessoa é culpada de um crime), para depois mostrar o oposto através dos fatos. Na primeira vez isso é divertido, na quarta começa a ficar cansativo. Talvez seja o fato de ele estar pregando para um convertido, mas o fato é que daria para comunicar mais com menos.

Nas Redes do Sexo – Os bastidores do pornô brasileiro

21 Nov 2010 | Comments

Nas Redes do Sexo foi mais um daqueles livros “fora da caixa” inseridos entre uma e outra leitura mais próxima do meu cotidiano – uma tática de expansão de horizontes que raramente me decepciona.

Baseado na pesquisa de campo da colombiana María Elvira Díaz-Benítez (doutora em antropologia social pela UFRJ), é uma análise interessante e minuciosa dos personagens (atores, produtores, recrutadores, técnicos, etc.) que formam a “rede” responsável pela produção de filmes pornográficos no Brasil, com foco particular na última década e na cidade de São Paulo – que, ao que tudo indica, é a Hollywood tupiniquim do gênero.

É um estudo bastante sério, livre de qualquer conteúdo erótico ou similar – se você procura pornografia, não é nele que vai encontrar. Mas abre espaço para alguma experimentação, cujo exemplo mais óbvio é a divisão da análise em capítulos que remetem à retratação cinematográfica do ato sexual em si: Preliminares foca no processo de recrutamento e pré-filmagem; Transa descreve os pormenores da captação e as polêmicas relacionadas (ex.: uso de camisinha), Consumação continua esse processo até a pós-produção/venda e Elenco faz um balanço sobre a vida e as perspectivas de atores e atrizes, dentro e fora do set.

O livro não perde de vista o olhar antropológico, o que pode tornar alguns trechos mais densos e menos interessantes para quem não tem inclinação para as ciências humanas. Não é o meu caso – mas se fosse, eu ainda recomendaria o livro, nem que fosse só pelas curiosidades e pelos bastidores desse suposto universo paralelo que, no fundo, é uma organização social como outra qualquer. É uma leitura sóbria, desprovida do erotismo que o título ou a capa podem sugerir – a menos, claro, do “voyeurismo intelectual” que qualquer texto com viés biográfico pode motivar…

Coding Dojo no Apontador

14 Nov 2010 | Comments

O Encontro Ágil 2010 (que merecia seu próprio post) se destacou pelo face-to-face: os open spaces e interações entre participantes foram tão produtivos que a tradicional carência de conectividade sem fio da USP trabalhou a favor. E foi justamente uma dessas interações, o Coding Dojo (saiba o que é um) organizado pelo Bruno Gola (com o forte apoio do Asa) que me inspirou a organizar uma sessão equivalente no Apontador. Segue uma visão geral da experiência:

Preparação

Devido à heterogeneidade do público potencial (e também para levar o ambiente já preparado), era razoável escolher a linguagem com antecedência. Usamos Python por tres motivos: é fácil de aprender na hora para quem nunca viu, o código fica compacto e legível, e a expoisção a uma linguagem nova é um bônus extra (de fato, um dos pontos positivos mais enfatizados na retrospectiva).

A estação de trabalho era o meu Mac do trabalho mesmo, então usei o TextWrangler, um editor básico com sintaxe colorida e que permite alternar facilmente entre o programa e o teste. Deixamos o editor ocupando 2/3 da tela, e o restante dividido entre o console (posicionado estrategicamente para garantir a visibilidade do OK ou FAILED do teste) e o cronômetro – ter as duas coisas na tela dá mais segurança e tranquilidade à dupla.

Uma reprodução do jeitão da tela durante o Dojo no Apontador (clique para ampliar)

Eu queria um cronômetro offline – apesar da internet do Apontador ser boa, é sempre bom reduzir riscos. Adorei o Coding Dojo Screenlet, escrito pelo próprio Gola, cuja cor de fundo (vermelho/verde) reflete o status do teste, ajudando a audiência saber quando (não) é apropriado se manifestar, mas ele só existe para Linux. A solução foi o timer do Hora Agora (criado pela Bani), que, aliado à interface minimalista do Chrome, resolveu super bem: o alarme ininterrupto garantia que o piloto, ao sentar no teclado, não esquecesse de reiniciar o timer (usando o parâmetro “?t=05:00″, era só dar reload na página).

Num dojo (e em TDD no geral) é uma boa idéia que, quando viável, o teste seja executado automaticamente sempre que você salva o arquivo. Conseguimos isso graças ao uso de nose + tdaemon (que ainda dá o resultado em popups do Growl), mas tem outras alternativas por aí como o autotest e o watchr. Outra idéia é rodar todo o ambiente do Dojo online, usando o CyberDojo. Opções não faltam: escolha conforme a linguagem, ambiente e gosto – o importante é deixar tudo preparado antes de começar!

No Dia

Após uma rápida introdução ao conceito de dojo e às “regras do jogo” (a Karen recomenda esses dois resumos), compilamos no quadro uma lista ordenada dos participantes – o que evita confusão na hora de trocar a dupla. A lista foi pela ordem em que as pessoas se voluntariaram, mas acho válida também a sugestão do Gola de alternar entre pessoas mais e menos familiarizadas com a tecnologia.

Dojo era novidade para quase todos os presentes, então pareceu razoável começar com um problema introdutório (RandoriKata), e fizemos o RomanNumbers (não por acaso, o mesmo que foi feito no Encontro Ágil). Foi interessante ver como a dinâmica e a técnica de solução de um mesmo problema variam em dojos diferentes.

Conclusão

A retrospectiva foi parte importante da experiência – ajudou a medir o que aprendemos juntos, onde acertamos e onde poderíamos melhorar. E me chamou a atenção ver que, mesmo não sendo o objetivo principal do dojo resolver o problema em si, o pessoal não quis ir pra casa sem ver todos os testes funcionarem. Não tenho dúvidas sobre o impacto positivo que isso terá no dia-a-dia de cada um.

Organizar um dojo não é coisa de outro mundo (gastei mais tempo escrevendo esse post do que preparando) – só é preciso realmente ter um espaço com projetor, comida e interessados. Recomendo reservar entre 1h30 e 2h para a brincadeira, e levar o ambiente pronto, deixando o encontro focado em programar e interagir.

Abrace a simplicidade e ajude as pessoas a seguirem as regras, mas sem pressão. Não perca de vista o aspecto lúdico e não-competitivo do evento, e o resto sai por conta. O pessoal se animou a compartilhar o código e marcar os próximos logo de cara. E o Apontador está considerando promover **dojos abertos para visitantes – interessados, manifestem-se! **