Entre livros, aplicativos e visitas ocasionais ao templo fundado pela Monja Coen (Zendo Brasil), eu já tinha flertado com a meditação, mas nunca fui muito a fundo. E nem estava super atrás disso, mas numa busca por opções de retiro, acabei conhecendo o Vipassana (🔈 pronúncia).
Trata-se de uma técnica de meditação não-religiosa, não-sectária e universal, ensinada em centros ao redor do mundo (incluindo vários no Brasil). Ela exige 10 dias de isolamento em silêncio quase total numa rotina pesada - mas que, em troca, ensina o Dhamma (“lei da natureza”, em Pali, o idioma falado na época do Buda), uma arte de viver que promete remediar problemas universais e erradicar o sofrimento.
A técnica é ensinada por Satya Narayan Goenka, um birmanês de família indiana que passou 14 anos se dedicando à prática antes de começar a ensinar, só indo pra Índia fazer isso a partir de 1969. Morreu em 2013, mas os cursos seguem até hoje, guiados pelos vídeos e áudios que ele gravou - professores assistentes ficam só para tirar dúvidas.
Segundo a tradição do curso, essa forma de meditação “raiz” se perdeu por conta da incorporação de ritos, religiões e crenças, mas foi preservada intacta na Birmânia até que o Goenka a reapresentou à Índia e, dali, ao mundo. Incentivado pela indicação da minha psicóloga, e por ter um centro em Ontário, eu experimentei - e foi, de fato, transformador.
Inscrição
Para se inscrever você precisa, antes de tudo, ter em mente que vai investir 12 dias da sua vida (o curso em si tem 10 dias, mas isso sem contar o dia da chegada e o da saída, os chamados “dia 0” e “dia 11”), o que pode exigir conciliar com férias de trabalho/estudo e/ou outras obrigações.
Tem uma página que lista todos os cursos futuros do Brasil e de cada centro. O problema é que tem vários tipos de curso, mas o único que um aluno novo pode fazer é o de 10 dias, então é melhor ir na busca - você já vai cair na aba de “alunos novos”. Ali coloque um período amplo e busque no Brasil ou em um estado viável, aí fica mais fácil.
Em qualquer uma das listas, para cada turma vai ser das duas uma: ou vai ter um botão “Inscreva-se”, ou algo como “Inscrições abertas em <data>”. A não ser que sua flexibilidade de datas seja ampla, esqueça o primeiro caso - se as inscrições já estão abertas, é quase certo que você vai cair numa lista de espera, pois a procura é muito grande. Ache uma turma ainda não aberta que seja viável e veja o dia em que abrem as inscrições. Nesse dia, as inscrições vão abrir por volta das 5h, horário de Brasília - mas isso pode oscilar um pouco com o horário de verão do lado de lá (o do Brasil já era desde 2019), então confira uns dias antes no primeiro link do parágrafo acima, que mostra o horário atualizado.
Bote o despertador e, quando estiver perto das 5, vai recarregando a página até o botão ou link de inscrição aparecer. Nessa hora ele vai perguntar se você já fez algum curso (não), e vai começar a pedir informações. Complete o processo em tempo hábil e ele vai dizer que a sua inscrição está sendo processada - você ainda não tem uma vaga confirmada. Ao longo dos próximos dias (foram uns 10 pra mim, mas meu centro era em Ontário) você deve receber e-mail com uma dessas quatro opções: inscrição confirmada, inscrição recusada, lista de espera ou mais informações (não vacile se pedirem mais informações: da primeira vez eu demorei mais de um dia pra responder e cancelaram).
Conforme a flexibilidade das suas datas, você pode se inscrever em mais de uma (se for aceita em uma, eles cancelam as outras inscrições). Eles me mandaram um e-mail umas 3 semanas antes do curso confirmando, então é bem provável que a lista de espera só ande quando estiver com esse nível de proximidade. Se você tiver flexibilidade de ir de última hora, ótimo, senão o melhor é mirar numa data certeira num futuro distante e acordar cedo pra estar entre as primeiras pessoas inscritas.
Preparação
Eu estava curtindo a ideia de 10 dias com uma rotina controlada (e livre dos sons que bagunçam minha mente), mas ao mesmo tempo eram 10 dias “no meio do mato” e sem qualquer tipo de leitura ou mídia, online ou offline, então deu uma certa ansiedade sobre o que levar.
O e-mail de confirmação vem com uma lista de coisas que você deveria levar, que eu fui pesquisando e refinando. Depois que voltei ponderei sobre o que eu queria ter tido e o que eu não usei, e cheguei nessa lista do que eu gostaria de ter levado:
Lista completa do que levar (clique para expandir)
Roupas
- 12-13 camisetas de algodão manga curta
- 3 calças de agasalho leves
- 3 calças finas/pijama
- 12-13 roupas de baixo
- 12-13 pares de meias
- Moletom de zíper
- Moletom pra dormir (sem zíper)
- Jaqueta corta-vento/anti-chuva leve (tipo essa)
Calçados
- Tênis confortável para uso externo
- Chinelo (2 pares)
Cama
- 2 lençóis (um pra forrar o colchão, outro pra dormir)
Higiene e banho
- Toalha de banho
- Sabonete sem perfume
- Shampoo sem perfume
- Desodorante sem perfume
- Pasta de dente, escova, fio dental
- Itens para barbear ou cuidados corporais equivalentes
- Lixa de unha
Saúde e bem-estar
- Remédios prescritos
- Anti-histamínico que não cause sono
- Remédio para dor de cabeça
- Remédio para estômago
- Protetor solar spray sem perfume
- Repelente
Equipamentos
- Despertador digital a pilha
- Lanterna de cabeça ou lanterna pequena
- Garrafa d’água (nada grande, uns 500ML no máximo)
Documentos e pagamentos
- Documento com foto
- Cartão de débito/crédito físico (opcional, para potencial doação, vide abaixo)
Outros
- Álcool gel ou equivalente
- 1 caixa de lenços de papel
- Lenços umedecidos sem cheiro (para higiene íntima, limpeza rápida e afins)
O curso é de 10 dias, mas tem o dia da chegada e o da saída - daí a sugestão de umas 12-13 trocas de roupa pra cobrir isso, mais emergências / eventuais banhos extras. Eu sugiro dois moletons porque a temperatura varia muito durante o dia, e você não vai querer dormir com o que usa lá fora (mesmo motivo das calças de agasalho).
Eles falam em sapato de uso interno, mas isso é pra dois lugares: o refeitório e o alojamento (daí eu achar mais jogo dois chinelos). No espaço de meditação é só meia (minha opção) ou descalço. Guarda-chuva tinha lá, e o resto é tudo muito perto. Cobertor eles têm lá se precisar. Travesseiros, sacos de dormir e afins são proibidos (risco de percevejos e afins). Viseira também não usei (fica bem escuro à noite). E não precisa estressar de esquecer algo: eles têm itens sobressalentes pra quase tudo - até calça arrumaram pra quem foi com bermuda acima do joelho.
Não era explicitamente obrigatório remover piercings, mas eu achei que chamaria a atenção (algo que é importante atentar), então o do septo e os brincos ficaram em casa (felizmente os furos já estavam bem abertos e deu pra recolocar na volta). Eu levei camisetas de manga comprida pra não chamar a atenção por conta das tatuagens, mas quando bateu o calor eu desencanei - e no final acho que nem precisava me preocupar, tinha gente muito mais tatuada que eu (e a idéia era não ficarmos olhando uns pros outros de qualquer forma). As pilhas do relógio e lanterna deram e sobraram, não precisa levar sobressalentes.
Eu levei um repelente super fraquinho de cheiro, desses que não tem DEET, mas não deu nem pro cheiro - parece que os mosquitos e pernilongos lá já se adaptaram ao repelente. Procure algo com cheiro discreto, mas forte. E leve uma lata grande, você vai usar bastante.
Finalmente, eu recomendo dar uma boa lida no Código de Disciplina - muito do que eu falo aqui é a versão prática do que está lá.
Indo pra lá
Oficialmente o centro se chama Ontario Vipassana Centre, mas seu nome extra-oficial é Dhamma Torana. Torana, em Pali, significa “Auspicioso Portal”, e provavelmente foi escolhido pela proximidade com “Toronto” (em particular se considerarmos como os locais pronunciam o nome da cidade), e foi escolhido por combinar acessibilidade da cidade (que o próprio Goenka via como um portal para o mundo, por seu multiculturalismo) com o isolamento necessário para a prática.
Realmente pra quem vai de carro é uma viagem curta, coisa de 1h30, e o curso organiza quem pode dar carona pra quem não tem. Mas por razões pessoais, não é uma opção que eu podia usar, então fui de transporte público: metrô até a Downsview Park (mais tranquila que a Union, que também serve) e de lá um trem - nos aplicativos ele só aparece como “GO Train” com um ícone “BR”, que é a linha Barrie.
As duas estações de desembarque perto do centro, South Barrie e Allandale, são praticamente equivalentes (uns 15-20 minutos de carro do centro cada uma); escolhi a Allandale porque tinha onde desfrutar de uma última refeição com carne antes dos 10 dias vegetarianos - já que o registro começava às 14h e eu não queria correr.
Mas nem o trem te deixa na porta: dos dois lados da viagem ainda sobra um trecho final até o centro, que só um Uber/Lyft/táxi resolve. Mas são só 20 minutos, e no geral a tranquilidade da viagem de trem super vale a pena (ao menos para mim, que tenho alergia a carro particular).
O registro é rápido e os voluntários muito gentis: nele, a gente deixa pertences de valor e coisas como celulares (estar sem ele até a hora de ir embora é o motivo pelo qual muitas fotos aqui não são minhas). Ele é feito no refeitório, e já se aproveita para escolher o seu lugar no refeitório - que vai ser o mesmo em todas as refeições dos próximos dez dias. Depois tem uma refeição, uma reunião de orientação, e o curso, juntamente com o período de silêncio, começa de fato às 8 da noite, no salão de meditação.
A rotina
Embora eu chame muitas vezes de “retiro”, o Vipassana é na verdade um curso de meditação. Ele gira em torno de uma técnica até que relativamente simples, que eu só não me aventuro a detalhar porque o elemento central é a prática, e justamente por isso é feita em isolamento, com uma estrutura de horários rígida, na qual você vai meditar cerca de 8-10 horas por dia.
As regras parecem rígidas e arbitrárias, mas na verdade elas são baseadas no sīla - a ética por trás do Vipassana. O sīla é um dos três pilares do caminho budista, e é a base para que a mente se acalme e se torne apta a observar a realidade como ela é. Essencialmente são cinco:
- Não matar seres vivos
- Não roubar
- Não mentir
- Não ter conduta sexual imprópria
- Não usar intoxicantes
Para o curso (e até fora dele) há nuances: o “não matar”, por exemplo, parece se estender até o prato - a comida é estritamente vegetariana - mas a ligação não é tão direta assim. O cânone Pali histórico (o Jivaka Sutta) nem trata comer carne como quebra do princípio - o problema é matar, não comer. O Goenka pensa diferente: nos discursos, ele defende que fazer parte do sistema que mata já fere o princípio indiretamente. Mas a alimentação servida no centro é, acima de tudo, pragmática: leve, saborosa, com opções, adequada à meditação e relativamente fácil de servir pra um grupo grande com restrições variadas.
Em outros pontos a régua é mais clara. O “conduta sexual imprópria” vira, no curso, qualquer conduta sexual. O “não usar intoxicantes”, ao contrário do que eu temia, não inclui cafeína. No frigir dos ovos, o melhor mesmo é abraçar e cumprir a promessa feita no início de experimentar o método em sua integridade e seguir as regras; são apenas dez dias, depois você faz o que bem entender da vida. Se isso não for possível, talvez o curso não seja pra você.
A essas regras se junta o Nobre Silêncio: os participantes não podem se comunicar, e devem evitar ao máximo contato visual, chamar a atenção, gesticular, ler ou escrever. Novamente, pode parecer arbitrário, mas como diz o Goenka, não é uma hierarquia, e sim um tripé: o sīla (moral) ajuda no samādhi (técnica), que ajuda na purificação obtida através da sabedoria interior (paññā) - e esta refina e suporta o sīla, fechando o ciclo!
O objetivo é que a mente se acalme e se volte para dentro, sem distrações externas. Mas pra mim teve um benefício adicional: enquanto autista, eu tenho a necessidade de conexão de qualquer ser humano, mas a comunicação do dia-a-dia é um skill aprendido que beira a performance, não algo que flui naturalmente. Logo, o que provavelmente foi uma tortura para muitos, pra mim foi uma experiência até que agradável: todos andavam de cabeça baixa, com o vestuário focado em conforto e discrição. Não vou mentir: ficava imaginando como os centros urbanos, o transporte público e outras aglomerações seriam menos inóspitos se todos agissem assim.
A meditação
Não tenho a menor pretensão de explicar aqui o que eu aprendi lá. Não é que seja uma técnica complexa ou misteriosa (muito pelo contrário), mas quando ela não é acompanhada da prática, soa tão arbitrária quanto qualquer ritual, religião ou técnica. Mas grosso modo: uma vez que você inicia alinhado com os princípios (sīla), o começo consiste em desenvolver a técnica (samādhi).
O primeiro passo para isso é o Ānāpāna: usando exatamente a técnica ensinada por Gotama, o Buda, você se concentra em observar a respiração e refinar a sensibilidade a sensações focando em um ponto bem particular do corpo relacionado ao respirar. Essa observação é guiada pelo princípio da equanimidade (não dar preferência a sensações boas, nem evitar sensações ruins).
Essa prática é refinada à exaustão nos primeiros dias, de forma cada vez mais profunda, até que você “afie” a mente o suficiente para o Vipassana efetivamente dito. Este vai consistir em usar essa habilidade de observar as sensações não mais em um ponto, mas em todos os pontos do corpo, sempre atentando à equanimidade e ciente da impermanência (anicca) e de que todas as sensações vêm e vão.
O objetivo não é modificar o comportamento consciente (necessariamente), porque isso as técnicas e terapias tradicionais conseguem muito bem - mas sim o subconsciente. Sim, se trata, em tese, de uma reprogramação neural, cujo objetivo é eliminar os sankhāra (reações incrustadas de aversão ou compulsão a sensações que surgem antes mesmo de a gente raciocinar) e dar ao seu lado consciente chance de alcançar o equilíbrio e, consequentemente, erradicar o sofrimento.
Essa sabedoria interior calcada em equanimidade (paññā) é o objetivo final. O budismo clássico já reconhece três tipos de paññā: o suta-mayā (a sabedoria recebida ao ouvir/ler de outros), o cintā-mayā (a sabedoria intelectual, que vem de raciocinar sobre o que se ouviu) e o bhāvanā-mayā - a sabedoria experiencial. O Vipassana não inventa essa terceira categoria, mas coloca nela todo o peso: só o bhāvanā-mayā paññā purifica de verdade.
E é justamente por depender do bhāvanā-mayā paññā que tudo o que eu estou explicando aqui pode soar meio óbvio, ou meio estranho: é preciso, além de escutar e pensar, experimentar. Esse é o ponto central, e o que me convenceu que sim, o isolamento e os dez dias são necessários - provavelmente são até pouco, porque o objetivo é audacioso.
Na prática
O dia começa cedo: 4h da manhã toca um sino/gongo, e a primeira sessão de meditação é às 4h30. Algumas das sessões podem ser feitas individualmente nos aposentos, mas ao menos três sessões de 1h são feitas obrigatoriamente no salão de meditação, e essas são particularmente importantes porque nelas a orientação é mais detalhada. Ao final do dia, tem o “discurso”: cerca de 1h15 da aula original do Goenka em vídeo, na qual ele ensina de forma correta o que eu regurgitei aí em cima.
E vou te falar: ele é um excelente orador e professor. Não era incomum que no final de um dia exaustivo eu estivesse perdido, confuso e prestes a fazer as malas; aí assistia o discurso e as dúvidas estavam esclarecidas, o espírito acalmado e a vontade de meditar voltava redobrada. Essas vídeo-aulas também traziam a evolução da técnica que seria praticada ao longo do dia seguinte, então lá pelos últimos eu já aguardava ansiosamente o próximo “episódio” da “série do Goenka”.
Cronograma completo (clique para abrir)
| Horário | Atividade |
|---|---|
| 4h | Sino de despertar |
| 4h30–6h30 | Meditação (salão ou quarto) |
| 6h30–8h | ☕ Café da manhã + tempo livre |
| 8h–9h | Meditação em grupo (obrigatória) |
| 9h–11h | Meditação (salão ou quarto), conforme instrução do professor |
| 11h–12h | 🍽️ Almoço |
| 12h–13h | Descanso (e entrevistas com o professor) |
| 13h–14h30 | Meditação (salão ou quarto) |
| 14h30–15h30 | Meditação em grupo (obrigatória) |
| 15h30–17h | Meditação (salão ou quarto), conforme instrução do professor |
| 17h–18h | 🍵 Chá / Frutas |
| 18h–19h | Meditação em grupo (obrigatória) |
| 19h–20h15 | Discurso do professor (vídeo do Goenka) |
| 20h15–21h | Meditação em grupo (obrigatória) |
| 21h–21h30 | Perguntas ao professor |
| 21h30 | Recolher, luzes apagadas |
(Fonte: cronograma oficial do curso; pequenos ajustes ocorrem em dias especiais.)
Vou confessar que eu tinha dificuldade com as sessões que duravam mais de 1h, então eu acabava quebrando essas em duas, ou encerrando um pouco antes. Também cheguei a pular umas duas sessões das 4h30 porque simplesmente eu estaria dormindo ao invés de meditar. Não é o ideal, mas se tem uma coisa que eu aprendi nesse curso, foi escutar o meu corpo, e aos 51 anos de idade ele tinha algumas observações a fazer.
Nos últimos dias, a sessão já tinha evoluído para o ciclo completo: Ānāpāna (respiração) → Vipassana (sensações) → Mettā (compaixão). Essa última parte, feita apenas quando a sessão foi positiva, consiste, grosso modo, em mandar boas vibrações para o mundo. Eu confesso que, por continuar completamente descrente de comunicação sobrenatural, torci o nariz para o que me pareceu oração. Mas à medida em que as sessões me traziam cada vez mais paz, amor e compaixão, a sensação de estar devolvendo isso pro mundo ficava mais sedutora. Ainda assim, prefiro mandar as minhas good vibes pessoalmente.
Alimentação
É algo que preocupa diversas pessoas, cada uma por uma razão diferente (seletividade alimentar, restrições de saúde, cultura não-vegetariana, etc.). Mas o centro faz de tudo para atender a todos, dentro do que o sīla permite: as refeições são vegetarianas, com alertas especiais para glúten, lactose, amendoim, etc.
O café da manhã tinha pão (em uma variedade multigrãos e outra com mais proteína), geleia, creme de amendoim, manteiga, margarina vegana e outras variações, além de granola, mingau de aveia, iogurte e frutas, então era possível variar. O almoço variava o prato principal - alguns bastante criativos como brócolis ao forno, ensopados diversos (um pouco apimentados - afinal, a influência indiana está em todo lugar ali - mas nada impossível), arroz e alguma proteína vegetal. E além disso você podia montar e temperar sua salada, então super deu para me alimentar bem todos os dias.
Bebidas eram um pouco menos interessantes: tinha alguns chás, mas eram mais fracos - talvez pelos envelopes ficarem expostos - mas dava pra misturar com leite de vaca, de amêndoa ou de soja (ou só tomar um deles). Minha preocupação era com cafeína, porque eu tinha interpretado o “não usar intoxicantes” como ausência desta, que é, segundo alguns, a droga mais usada do mundo. Mas eles tinham café solúvel, o que me salvou de um detox extremamente doloroso (eu tentei cortar umas duas vezes e quase morri de dor de cabeça).
“E a janta?”, você pergunta. Bem, a prática é de não se alimentar após o meio-dia, então em princípio o almoço (servido às 11h) seria a última refeição e, após isso, se tomaria apenas chá. Mas quem faz o curso pela primeira vez tem uma lambuja: pode comer frutas às 5 da tarde e incluir o leite no chá - como nas outras refeições, sem restrições de quantidade.
Eu fazia disso a minha janta, para não passar muita fome à noite. No início chutava o balde, mas aprendi com o Goenka e com a prática que quando eu exagerava numa refeição, a meditação não ia bem. Me adaptei à rotina, e até trouxe um pouco dela comigo, mas de leve: a janta, por exemplo, voltou.
Convivência
Homens e mulheres são separados, com professor(a) e coordenador(a) do curso para cada gênero - cada grupo tem o seu refeitório, alojamento e área para caminhar (apesar que essa última envolvia uma luta inglória com os mosquitos). Os grupos só se veem durante a meditação (ainda assim em lados opostos do salão, além do fato de que meditação é de olhos fechados mesmo).
Aliás, esse salão era provisório: o teto do prédio original desabou com uma chuva forte, e ainda não tinha sido reconstruído. Felizmente o refeitório é bem grande, permitindo usar metade dele como salão de meditação coletivo nesse meio-tempo, com um tapete no chão marcando a fronteira entre homens e mulheres.
Não sei se o foco dessa divisão é evitar as tais “condutas sexuais indevidas” - seria um tanto gênero-normativo na minha humilde opinião - mas, enfim, é como funciona. Por falar nisso, o centro acolhe bem pessoas LGBTQIA+ e PcDs (havia uma pessoa com deficiência visual no meu grupo), bem como quem não falava inglês, oferecendo fones de ouvido com tradução.
A maioria dos alunos fica em alojamentos, às vezes dividindo quarto. Mas depois da inscrição recebi um e-mail perguntando se eu topava ser considerado para uma cabinette - não ficou claro qual o critério usado pra oferecer isso a alguns alunos e não a outros, mas topei na hora. A vantagem é a privacidade; a desvantagem é que ele não é climatizado, e qualquer necessidade noturna (o banheiro fica no alojamento) exige pegar a lanterna e andar no meio do mato.
Na prática, a regra da discrição era seguida à risca. É muito estranho pra quem já pegou o costume local não estar agradecendo e dizendo “sorry” a todo momento, mas você se acostuma. Em raros momentos alguém puxava o coordenador do curso de canto para perguntar algo, e era possível marcar entrevistas curtas com o professor assistente ou usar o último horário para isso, mas eram sempre perguntas e respostas focadas, nada de conversa.
Apesar de tarefas relacionadas à alimentação e manutenção serem feitas pelos voluntários (pessoas que já fizeram outros cursos e que se voluntariam para “servir”, como dizem, ou “sentar e servir” - fazer isso e também participar das sessões de grupo), a limpeza dos banheiros e áreas comuns é feita pelos alunos, que se voluntariam escrevendo o nome numa lista no local. Eu optei por me voluntariar para limpar o banheiro do dormitório no dia 3 (era preciso voluntariar para os dias 3, 6 e 9; cada lugar tem os dias programados com espaço para escrever e instruções detalhadas). Não foi difícil para quem já está acostumado a tarefas domésticas, mas deu pra ver que muita gente não tinha essa experiência ali - inclusive demorou pra aparecer voluntários pros outros dias, quase que me voluntariei de novo.
Também tinha uma escala do chuveiro, porque em tese você não pode tomar banho durante as horas de meditação (que eram quase todas), então você reservava um horário dentro/próximo dos horários de alimentação. Eu peguei o horário logo depois do chá/frutas da tarde, mas a escala tinha vários horários não alocados (eu acho que a galera acabava tomando banho sim em horário de meditação, mas é só conjectura porque nesses eu não estava lá).
Eu não sou exatamente apaixonado pelo convívio com outras pessoas, mas entre as regras e o esforço genuíno das pessoas em não perturbar umas às outras (ainda que nem sempre acompanhado pela capacidade), deu pra passar os dez dias bem tranquilo. Até porque qualquer incômodo acabava entrando na conta mental do observar a sensação (agradável ou desagradável) sem reagir automaticamente a ela.
Jogos mentais e distrações
Apesar do já mencionado foco geral em não chamar ou prestar atenção, era inevitável observar aquele monte de gente meio que de pijama (o foco das roupas era conforto e discrição) andando de cabeça baixa. Mentalmente eu apelidei pessoas e lugares. Exemplos notáveis foram o cara que sempre tinha camisetas falando de cachorros - era o “Dogs”, e uma rotatória com uma árvore no meio que, sendo o único lugar asfaltado e, portanto, em torno da qual muita gente ia andar quando dava um intervalo, eu chamava de “Carrossel dos Doidinhos” (errado, eu sei 🙈, mas eu precisava de alguma distração lúdica para temperar a seriedade).
Durante a meditação, a minha maior dificuldade era perder a noção do tempo. A maior parte das sessões era de cerca de 1h, mas algumas tinham 1h30 ou 2h. Como era permitido sair no meio dessas (apenas as chamadas “sessões de grupo” pediam para ficar a sessão inteira), eu gostava de dividir em dois blocos, mas sem um relógio, ficava difícil. Inspirado em um coleguinha (também batizado mentalmente, o “Alarm Clock”), eu deixei meu relógio à pilha no meu lugar demarcado do salão de meditação (diferente do refeitório, os lugares são pré-definidos), e com isso conseguia dividir melhor os horários.
Os únicos “displays” que eu tinha acesso eram os relógios na entrada do salão de meditação e no refeitório, e um termômetro (old school, de mercúrio) na porta do alojamento - foi dali que eu vi que a temperatura chegou a baixar perto de 10 graus e subir até os 27. A maior dificuldade para mim era pegar no sono, porque eu costumo colocar algum podcast ou reportagem no áudio. Pra piorar tinha os sons do mato - sei lá se eram grilos, cigarras, sapos ou o que; só sei que a pouca simpatia que eu tinha por essa ideologia Chico Bento de que tudo na natureza é mais tranquilo acabou ali; eu quase que preferiria alarme de carro e caminhão dando ré no lugar daquela algazarra ininterrupta.
Observando de verdade
Para permitir a observação equânime das sensações (sem compulsão pelas boas ou aversão às ruins), o método modela o processo pelo qual as sensações são “processadas” pelo cérebro em quatro estágios: cognição (“oh, algo está acontecendo nesse lugar do meu corpo”), reconhecimento (“hmm, julgando pela minha memória, isso é um toque, macio, provavelmente de outro ser humano”), avaliação (“isso é bom/ruim”) e reação (“melhor me afastar / chegar mais perto”). Desses, o último (ou, especificamente, o instinto subconsciente de reagir) é o que a meditação busca eliminar.
Isso é uma versão tosca da explicação que é dada lá. Mas o fato é que funciona: você começa a observar as sensações sem reagir instintivamente a elas. E aí acontecem as coisas mais interessantes. A campeã foi quando comecei a sentir uma sensação de “agulhada” sob a barba. Logo em seguida ela se aprofundava/dilatava (era muito discreto, mas eu já estava afinado, era lá pelo dia 8) e sumiu. Suspeitei e, ao final da meditação, confirmei: eu fui picado por um mosquito, sem esboçar qualquer reação (exceto talvez pelo espanto de ter alcançado esse nível de paz momentânea, que ainda perdura).
Outro momento digno de nota, esse durante a fase inicial em que apenas se observa a respiração e uma região restrita (Ānāpāna), para chegar no que outras técnicas chamam de “esvaziar a mente” (mas que no Vipassana tem mais a ver com focar a mente no momento presente, e, especificamente, nas sensações observadas nesse momento): eu sou daquelas pessoas que têm um diálogo interno/voz interior (até pouco tempo atrás achava que todo mundo tinha, mas não é bem assim).
Em um desses momentos em que eu estava extremamente concentrado na respiração (sem qualquer imagem, vocalização ou imaginação), eu tive a impressão de que essa voz se calou (pela primeira vez que eu tenho lembrança). O mais doido: logo em seguida veio um turbilhão de memórias de infância; algumas que estavam super enterradas. Seguramente não era o objetivo (tanto que tratei de deixar de lado pra analisar depois), mas é fascinante ver como é possível mexer com a mente mesmo sem ajuda bioquímica externa.
Quebrando o silêncio
O dia 10 é o dia em que o Nobre Silêncio se encerra. O Goenka brinca mencionando que isso vira o “Nobre Blá-blá-blá”, e eu confirmei: no início (em que a gente tem um intervalo prolongado) as conversas eram super calmas e focadas. Não demorou muito e já tinha um grupo debatendo apaixonadamente sobre a situação política da Índia, em outro uma pessoa destilava os traumas de infância que reencontrou durante a meditação, e por aí vai.

Eu fiquei mais quieto no começo (honestamente, eu não estava nem um pouco ansioso para encerrar o silêncio - como eu disse, eu queria mais era que ele fosse a norma em qualquer local público), mas esse comportamento até que me tornou popular: em terra de gente querendo falar, quem escuta é rei. Mas ainda assim eu me conectei com as pessoas através da escuta - e também falei o meu bocadinho, né? 😅
Foi aí que eu percebi que não era o único prestando atenção nos outros: eu fiquei conhecido pelas tatuagens pouco convencionais e pelo relógio no templo. Quando coloquei ele lá, fiquei meio preocupado em estar chamando a atenção - ele tinha um display grande e luminoso (mesmo com o brilho no mínimo), mas vários participantes vieram me agradecer, porque praticamente todo mundo atrás de mim estava vendo as horas no meu relógio e isso ajudou essas pessoas também!
Enfim, cada um se reconectou à sua maneira, mas o denominador comum era a gratidão e a satisfação com a experiência de observar seus sentimentos e suas reações, e ali eu começava a ver que realmente a experiência introspectiva construía, uma explosão de gratidão, amor e compaixão pelos outros. Paradoxal, eu sei, mas é isso que acontece quando você se conecta com a realidade como ela é.
Encerramento e volta
Na manhã do dia 11, depois do encerramento, a gente recupera os pertences deixados no registro, celular incluso. Mas o momento mais importante ali é outro: a oportunidade de fazer uma doação (dāna, em Pali) para o centro. O curso inteiro é gratuito - você não paga nada pela comida, hospedagem ou pelo ensino em si - e é sustentado unicamente pelas doações de quem já fez cursos anteriores. No dia 11 chega a sua vez de decidir se quer (e quanto) contribuir para que outras pessoas tenham a mesma oportunidade que você teve, sem nenhum tipo de pressão ou cobrança: é uma escolha pessoal e totalmente opcional. (Voluntariar-se pra “servir”, como já mencionei, é outra forma de retribuir - dessa vez com tempo, não dinheiro.)
Voltar do centro pra estação de trem de Uber quase deu ruim: não tinha sinal de celular em lugar nenhum da região, e ali na portaria, debaixo de uma garoa fina, eu ainda tentava caçar alguma gotinha de sinal pra chamar um carro. Um voluntário chamado Soma, que tinha acesso ao Wi-Fi do local, me viu nessa e, gentilmente, chamou um Uber pelo celular dele - e nem me deixou pagar, colocando em prática o espírito do que se ensinou por ali.
Tudo isso me deixou pensando em A Corrente do Bem, aquele filme em que o garoto propõe que cada pessoa faça um favor bom pra três outras, que fariam o mesmo por mais três, e assim por diante. Obrigado, Soma, onde quer que você esteja.
Vale a pena?
Duas semanas após o fim do curso, eu acho que já consigo distanciamento para afirmar que, sim, ele criou mudanças profundas na minha auto-percepção. Ainda é cedo para falar no impacto no meu dia a dia (além, claro, de ter adicionado a meditação como algo que eu pratico com prazer - embora nem de longe na frequência de 2 sessões de 1h por dia como o Goenka sugere), mas já impactou muito a minha auto-análise (tanto a que eu faço na terapia quanto as reflexões pessoais).
Eu tenho certeza que praticamente todo mundo se beneficiaria de ter feito esse curso. Só não sei dizer se dedicar dez dias a ele é algo que está ao alcance de todo mundo - não apenas no quesito das responsabilidades do dia a dia e das possibilidades deixadas pelo trabalho, estudos, lar, sociedade, etc., mas também da pessoa estar em um “estado de espírito” tal que ela se permita a entrega total ao método: tanto em termos do esforço pessoal, quanto de colocar preceitos e desconfianças de lado. Se esse for o seu caso, sim, eu recomendo muito!









