
É fácil cair na tentação de achar que quem vota na direita faz isso por ignorância ou maldade. Claro, tem gente assim em qualquer grupo, mas a maioria das pessoas quer a mesma coisa: viver melhor, sentir segurança, ter oportunidades e ver justiça. A diferença é que cada um tem uma visão diferente de como chegar lá.
Com isso em mente, eu passei os últimos dias tentando, de coração, entender o que levou quase metade de quem foi votar a escolher o Flávio Bolsonaro, e também por que tanta gente votou em branco, anulou ou nem foi votar. A conclusão que eu cheguei é que muita gente está cansada de esperar mudanças que nunca chegam e de olhar para as pautas sociais (que até acham justas) sem se ver nelas. Então faz sentido votar em quem promete virar a mesa. Com a raiva do eleitor eu me solidarizo. Mas com gente como o Flávio, que usa essa raiva pra ganhar voto, não.
Tem coisas que eu penso parecido com quem votou nele. Corrupção, por exemplo, é um dos grandes males do país, e isso inclui a que aconteceu em governos do PT: mensalão e petrolão existiram, é fato. Ninguém quer ser vítima de crime, e eu entendo o desamparo que faz querer ver o bandido punido, às vezes até de maneiras bárbaras. Quem já passou por uma violência, ou teme por si e pela família, não tem como pensar de cabeça fria.
Só que votar no Flávio agora não resolve isso. Reduzir a maioridade penal e construir presídios dá alívio (e vale uma conversa sem paixão). Mas o que realmente sufoca o crime é combater na raiz. Por exemplo, como a Polícia Federal e o Ministério Público de São Paulo fizeram com o esquema do PCC nos postos de gasolina e nas financeiras da Faria Lima. E isso é difícil de esperar: o governo Bolsonaro botou tanto freio na PF que até o Moro pediu pra sair.
Nem vou tentar fazer um balanço completo das gestões do Lula. Tem tropeços, como a “taxa das blusinhas”, que mexeu direto no bolso da classe média. Mas é difícil negar que, das duas opções, é de longe a que tem mais programas e números pra mostrar melhora. E, mais importante: foi a que respeitou a democracia. O governo do Bolsonaro, por outro lado, foi marcado por ataques às instituições, à imprensa e à democracia, e terminou com o ex-presidente condenado por tentar reverter à força uma eleição que perdeu. Os filhos, Flávio incluído, repetem esse discurso.
Além disso, tem a questão prática: o PL elegeu a maior bancada da Câmara e do Senado, e com Presidência e Congresso na mesma mão sobra pouca gente pra dizer “não”. Mesmo quem acha que os dois dão na mesma (ou até gosta mais do Flávio) pode ver que, nesse cenário, o Lula é um contrapeso necessário. Sem falar que, em 2030, o Lula não pode concorrer de novo e o Bolsonaro segue inelegível: é a chance de a gente voltar a ter direita e esquerda com algo novo pra oferecer. Anular o voto, ficar em casa ou ir de Flávio é abrir mão disso.
Por isso vou votar Lula agora, e espero que você também. Não porque eu concorde com tudo que ele fez ou faz, mas porque ele é a melhor opção pro país nesse momento, inclusive pra quem não gosta dele. Se pra você o Lula é um voto ruim, tudo bem: o que não dá pra negociar é o direito de votar - e a outra opção arrisca isso. Já se você votou no Flávio e esse receio te deixou com a pulga atrás da orelha, o segundo turno é a chance de mudar de ideia sem precisar mudar quem você é.